PROFECIA DO PAPA BENTO XV: COMO SERÁ A IGREJA NO ANO 2000?

Como será a Igreja no ano 2000?
Pronunciamento do Padre Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI) em 1969: 

O teólogo não é um adivinho; tampouco é um futurólogo que calcula o futuro com base em fatores mensuráveis do presente. Sua vocação se afasta, em grande parte, de cálculos. Por isso, sua preocupação com o futuro, ainda que legítima, é muito limitada — a futurologia não é adivinhação, mas apenas a tentativa de determinar o que é calculável, deixando o incalculável em aberto.
Como a fé e a Igreja mergulham nas profundezas de onde continuamente brotam novidades criativas, o inesperado e o não planejado, seu futuro permanece oculto, mesmo numa era de futurologia. Quando Pio XII morreu, quem poderia prever o Concílio Vaticano II ou os rumos do pós-concílio? Ou, quem teria ousado anunciar o Concílio Vaticano I quando Pio VI morreu prisioneiro em Valença, após ter sido sequestrado pelas tropas da jovem República Francesa em 1799? Fizeram-se então orações fúnebres pelo papado, tido como extinto para sempre. 

Sejamos prudentes com as previsões. O que disse Santo Agostinho continua verdadeiro: o homem é um abismo; o que surgirá dessas profundezas, ninguém pode ver antecipadamente. E quem crê que a Igreja não é apenas moldada pelo abismo que é o homem, mas mergulha no abismo maior e infinito que é Deus, será o primeiro a hesitar em fazer previsões. O desejo ingênuo de saber com certeza seria apenas sinal de sua própria incompetência histórica. 

O título deste capítulo faz sentido? Sim, desde que tenhamos em mente nossas limitações. É justamente em tempos de agitação histórica violenta — quando o passado parece se dissolver e coisas totalmente novas surgem — que os homens precisam refletir sobre a história, que os ajuda a ver o exagero do momento e reintegra tudo num acontecimento que, embora nunca se repita, nunca perde sua unidade e contexto.

A necessidade de refletir sobre a história
Refletir sobre a história, corretamente entendido, envolve olhar para o passado e, a partir disso, considerar as possibilidades e tarefas do futuro. Isso só se torna claro quando se contempla um longo caminho e não nos fechamos ingênuos no presente. O passado não prediz o futuro, mas limita a ilusão de total novidade, mostrando que — embora não se repita exatamente — algo muito semelhante já aconteceu antes. A diferença explica a incerteza de nossas previsões e a novidade de nossas tarefas; a semelhança nos dá orientação e correção.

O que liga os iluministas de ontem aos de hoje
O período mais semelhante ao nosso na história da Igreja é o do Modernismo, no início do século XX, e também o fim do Rococó, com o surgimento do Iluminismo e a Revolução Francesa. A crise modernista nunca se resolveu, apenas foi interrompida pelas medidas de São Pio X e pela mudança intelectual após a Primeira Guerra. A crise atual é a retomada adiada daquela.
Quem estuda mais atentamente se espanta com o quanto os dois períodos se assemelham. Hoje, o Iluminismo não goza de grande reputação, mas suas ideias permanecem: rejeição da história como “depósito de velharias”, confiança triunfante na razão e rejeição da tradição. Termos como “racional” e “inteligível” governam a ação.
Mas antes de condenar isso como negativo, vale lembrar que os “iluminados” de ontem e hoje compartilham exageros e também bons começos. Isso mostra que o presente não é tão novo assim nem isento de comparação histórica.

Quando a tesoura da razão quer podar a fé
O Iluminismo teve seu movimento litúrgico: simplificar a liturgia, tirar os excessos do culto aos santos e relíquias, introduzir o vernáculo, canto popular, participação. Houve também o movimento episcopal que queria descentralizar Roma. Wessenberg, vigário de Constança, queria sínodos provinciais, fim do celibato, sacramentos só em vernáculo e liberdade para casamentos mistos.
Ele queria pregação regular, ensino religioso mais sério, estudos bíblicos. Não era um racionalista cego. Mas sua fé era moldada apenas pela razão “construtiva” — útil, mas insuficiente se for a única ferramenta. O mesmo se vê no Sínodo de Pistoia (1786), que tentou aplicar as ideias iluministas à Igreja, mas fracassou ao misturar reformas válidas com ingenuidade racionalista. Muitas das suas proposições foram condenadas por Pio VI em 1794.

Aonde leva acompanhar o “progresso”?
Gobel, arcebispo de Paris, seguiu cada passo do progresso: apoiou a Igreja constitucional, abandonou o sacerdócio, participou do culto à deusa Razão em Notre-Dame. No fim, foi guilhotinado como ateu sob Robespierre, que considerava o ateísmo um crime. O progresso correu mais que ele.
Na Alemanha, o cenário foi mais calmo. Fingerlos, diretor do Georgianum, dizia que o sacerdote deveria ser educador popular: ensinar agricultura, arte, música... Um “trabalhador social”. Já Wessenberg queria reformas estruturais, mas ignorava o que estava fora da construção racional.
Um contraste interessante é o bispo Johann Michael Sailer, de Ratisbona. Em 1794, perdeu a cátedra por ser “iluminista”; em 1819, foi vetado como bispo por ser “racionalista”; ao mesmo tempo, era odiado pelos verdadeiros iluministas. Era inclassificável: não cabia em “progressista” ou “conservador”.

Em busca de uma teologia do coração
Sailer dialogava com Kant, Schelling, Pestalozzi. Para ele, a fé não era um sistema fixo de proposições, nem um salto irracional, mas sim um encontro com a verdade viva. Ele conhecia profundamente a tradição mística da Idade Média e via a história como chave para o presente.
Ele buscava uma “teologia do coração” — não por sentimentalismo, mas porque sabia que o homem é unidade de corpo e espírito, razão e afeto. Saint-Exupéry disse: “Só se vê bem com o coração.” Sailer era um visionário porque tinha coração. Só quem se doa gera o futuro. Quem apenas quer ensinar, permanece estéril.

Menor, menos visível, mas com nova força
Outro homem decisivo foi São Clemente Maria Hofbauer, o padeiro boêmio que virou santo. Limitado em alguns aspectos, mas cheio de amor e entrega ao próximo, ajudou muitos a reencontrar Deus. Seu cristianismo humilde foi mais humano e razoável do que a frieza acadêmica dos racionalistas.
O que sobreviveu do século XVIII em ruínas foi uma Igreja menor, sem prestígio social, mas interiormente fecunda. Dela brotaram movimentos leigos, novas congregações e forças renovadoras.
“O futuro da Igreja nascerá daqueles que vivem a plenitude da fé.”
Hoje, também, o futuro da Igreja virá dos que têm raízes profundas e vivem da fé plena. Não virá dos que se ajustam ao momento passageiro, nem dos que apenas criticam os outros como se fossem padrões infalíveis. Não virá dos que evitam o sacrifício e a exigência da fé.
Virá dos santos — homens que veem além dos slogans, porque vivem uma realidade maior. O desprendimento só se atinge com pequenos atos diários de renúncia. Esse “martírio cotidiano” abre os olhos do homem. Vemos apenas na medida em que sofremos e vivemos.
Hoje mal conseguimos perceber Deus porque fugimos de nós mesmos, entorpecidos por prazeres. Nossa pobreza interior grita.

A Igreja sem fé se destruirá
A conversa fiada sobre uma Igreja “sem Deus” é vã. Não precisamos de uma Igreja politizada que faz orações ideológicas. Ela se destruirá sozinha. O que permanecerá será a Igreja de Jesus Cristo, que crê no Deus encarnado e na vida eterna.
O sacerdote que é só assistente social pode ser substituído por psicólogos. Mas o sacerdote que se entrega, que está com os homens nas dores, alegrias e esperanças, sempre será necessário.

Da crise atual surgirá a Igreja do amanhã
A Igreja do futuro surgirá da crise de hoje — menor, com menos influência, sem muitos edifícios e privilégios. Será mais exigente com seus membros, mais voluntária. Mas reencontrará seu centro: a fé no Deus Uno e Trino, em Jesus Cristo, na presença do Espírito. Redescobrirá os sacramentos como culto a Deus, não como laboratório de liturgistas.
“Tudo isso levará tempo. O processo será longo e árduo.”
Será uma Igreja mais espiritual, sem alianças políticas. Custará energia, empobrecerá, será a Igreja dos humildes. Será necessário eliminar tanto o sectarismo quanto a vaidade arrogante. O caminho será difícil como o do século XIX após os erros pré-revolucionários.
Mas, ao final da purificação, surgirá uma força nova. Num mundo totalmente planejado, os homens se sentirão profundamente solitários. Descobrirão o pequeno rebanho dos crentes como algo novo. Uma esperança escondida, sempre buscada.
“Estou absolutamente certo do que restará no fim: não a Igreja do culto político — que já está morta — mas a Igreja da fé.”
A verdadeira crise ainda está por começar. Virão grandes abalos. Mas o que restará será a Igreja da fé — talvez sem o poder social de outrora, mas florescente, e vista como o lar do homem, onde se encontra vida e esperança além da morte.

Fonte original: pronunciamento radiofônico de Joseph Ratzinger, em 25 de dezembro de 1969, na rádio Hessischer Rundfunk, sob o título “Was heißt katholisch? oder Die Kirche im Jahr 2000”. Publicado em Joseph Ratzinger, Glaube und Zukunft (1970), incluído nos Escritos Reunidos de Joseph Ratzinger (JRGS 8).

Paróquia Sagrada Face de Tours
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Pároco Prof. Emílio






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